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O rugby é uma modalidade esportiva pouco difundida no Brasil em função da diversidade cultural da qual este esporte se origina. Entretanto, é cada vez mais comum ouvirmos sobre tal modalidade em termos de competições estaduais, nacional e internacional no que concerne a prática no Brasil. Uma das razões da popularização do esporte no território nacional se dá, em parte, a globalização de modalidades esportivas similares, como o futebol americano (conhecido como football) que apresenta algumas regras similares e a dinâmica de jogo um pouco parecida. 

Primeiramente, é de extrema importância compreender o padrão de treinamento de um atleta de rugby a fim de delinear intervenções nutricionais. De modo geral, a rotina de treinamento de um atleta desta modalidade inclui demandas concorrentes, objetivos distintos de formação e variabilidade de acordo com o momento da temporada. Dessa forma, os jogadores usualmente realizam programas de treinamento periodizados visando o desenvolvimento de tarefas de velocidade, agilidade, potência e resistência aeróbia e anaeróbia, sendo que estes três últimos são normalmente obtidos dentro de um programa de treinamento de força que é realizado ao longo do ano em ambiente de academia, em campo e ginásios. Desta forma, o volume e intensidade de treinamento são variáveis fundamentais na determinação da necessidade relativa do consumo calórico, macronutrientes e micronutrientes para o ótimo desempenho esportivo, recuperação entre as sessões e manutenção da massa muscular. Além disso, vale lembrar que o esporte exige contato físico, o que aumenta a probabilidade de lesões. Portanto, é indispensável a aplicação da nutrição clínica em momentos de reabilitação, porém, sem perder o foco esportivo.

A inconveniência e possível desconforto de se alimentar durante tarefas múltiplas e de alta intensidade durante uma partida/treino de rugby reforça a necessidade de estratégias nutricionais proativa nos dias anteriores e após o término do jogo/treinamento visando desempenho esportivo e recuperação muscular, respectivamente. O desempenho de um atleta de modalidades de alta intensidade em realizar sprints (tiros), que é característico do rugby, tem como fator limitante primário a concentração de glicogênio muscular pré-exercício. Assim, a baixa ingestão de carboidratos nos dias que antecedem o jogo poderá comprometer a capacidade de explosão do jogador. Akermark et al. (1996) demonstraram que a restauração do glicogênio muscular é mais efetiva em esportes coletivos quando os atletas são submetidos a dietas com elevador teor de carboidratos (~8,4 g/kg de peso corporal/dia). Tal fator é extremamente importante para atletas de rugby principalmente nos dias que antecedem a competição. De modo mais abrangente, o American College of Sports Medicine, em conjunto com a American Dietetic Association e a Dietitians of Canada, sugerem que a ingestão diária de carboidratos visando a reposição do glicogênio muscular deve ocorrer na ordem de 5-8 g/kg de peso corporal/dia, podendo ser tal valor excedido dependendo da periodização do treinamento. No tocante a durante o treinamento/partida, é fundamental a reposição hídrica para manutenção do desempenho e, dependendo do atleta, realizar a reposição do glicogênio muscular também. O fator determinante para tal delineamento está, principalmente, na duração do esforço, ou seja, o tempo em que o atleta permanece realizando a atividade de modo contínuo. Portanto, podemos concluir que carboidratos são a fonte primária de energia para o rugby uma vez que contribuem de modo determinante para tarefas de alta intensidade e curta duração.

Se tratando de uma modalidade exaustiva, de alta intensidade e curta duração, é esperado que ocorram situações de lesão muscular induzida pelo exercício (de modo não patológico) que acarreta na degradação de estruturas que pode levar à diminuição da função muscular. Assim, além de aumentar a síntese de glicogénio durante a recuperação pós-exercicio/partida, a ingestão simultânea de proteínas (aminoácidos essenciais) é essencial para reparar o metabolismo energético e a produção de força). Sabe-se que a ingestão de ~25 gramas de proteínas de alto valor biológico pode provocar uma resposta máxima na taxa de síntese proteica. Portanto, é razoável sugerir jogadores devem consumir quantidades semelhantes (20-25 g) de proteína para otimizar a reparação do tecido muscular após o dano associado a cada treinamento/partida, especialmente considerando o período de recuperação encurtado entre partidas e treinamentos.

Tanto no que concerne fornecimento de energia, reposição de glicogênio e preservação de massa e força muscular, suplementos alimentares são estratégias que podem ser utilizadas com sucesso. Para o fornecimento de energia, suplementos a base de carboidratos, a creatina como fonte de energia imediata, a beta-alanina como modulador do processo de acidose muscular, dentre outros, são compostos extremamente aplicáveis para a modalidade do rugby. Já no processo de reparação muscular, suplementos a base de proteína (de modo geral) têm sido mostrado como efetivos. A inserção destes compostos dentro do planejamento dietético, cabe ao profissional nutricionista que deve avaliar em função do momento da periodização do treinamento/campeonato.

Para ilustrar a importância da nutrição e de seus profissionais, Zinn et al. (2006) avaliaram o conhecimento nutricional de técnicos de rugby da Nova Zelândia. Um total de 168 técnicos participaram da pesquisa por meio de questionário previamente validado e foram avaliados quanto a disseminação de orientações nutricionais que os mesmos forneciam aos atletas. Foi verificado que 83,8% dos técnicos forneciam orientações nutricionais aos jogadores, porém, somente 55,6% dos mesmos responderam corretamente as questões relacionadas ao conhecimento acerca da ciência da nutrição. Estes dados reforçam a importância da adequação do consumo alimentar destes atletas visando o melhor rendimento esportivo por meio de profissional qualificado, no caso o nutricionista esportivo com conhecimentos sobre princípios de treinamento de modo a desenvolver o trabalho de modo individualizado e multiprofissional.

 

Referências e sugestões para leitura

Akermark, C., Jacobs, I., Rasmusson, M., & Karlsson, J. (1996). Diet and muscle glycogen concentration in relation to physical performance in Swedish elite ice hockey players. International Journal of Sport Nutrition, 6(3), 272–284.

 

American Dietetic Association; Dietitians of Canada; American College of Sports Medicine, Rodriguez, N.R., DiMarco, N.M., & Langley, S. (2009). Nutrition and athletic performance. Medicine and Science in Sports and Exercise, 41(3), 709–731.

 

Zinn C, Schofield G, Wall C. Evaluation of sports nutrition knowledge of New Zealand premier club rugby coaches. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2006 Apr;16(2):214-25.